Leitura & Escrita

Mantenha-se informado das novidades



LEITURAS & ESCRITA – DE ARTISTA PARA ARTISTA 3… MUTES ENTREVISTA MIGUEL MOREIRA E SILVA -

LEITURAS & ESCRITA – DE ARTISTA PARA ARTISTA 3… MUTES ENTREVISTA MIGUEL MOREIRA E SILVA - "A ASSEMBLAGE PERMITE-ME EXPLORAR MEMÓRIAS PESSOAIS E OBJETOS QUE REFLECTEM O IMPULSO HUMANO DE MANTER E PRESERVAR"

"A assemblage permite-me explorar memórias pessoais e objetos que reflectem o impulso humano de manter e preservar"


Entrevistas: MUTES e Miguel Moreira e Silva (Março 2018). Fotografia: Miguel Moreira e Silva (Acrílico sobre Tela, "Retrato | Bio-mecânico | 1 ", em exposição na Lethes Art 2018). Coordenação, Edição e Tradução: Isabel Patim. (Setembro 2018) 


I – de Artista para Artista 3…

Neste segmento específico do separador ‘Leituras & Escrita’, convidam-se Artistas a conversarem com Artistas. Convido o Artista Entrevistador a apresentar uma paleta de seis a dez perguntas ao convidado Artista a entrevistar. Inaugurada esta ‘curadoria de textualidades’, com os textos de Tiago Madaleno e de Joana Patrão,  segue-se, agora, a paleta de questões do artista MUTES a Miguel Moreira e Silva. 

Let’s read!

Isabel Patim


II – Entrevista: Miguel Moreira e Silva por MUTES. 


MUTES – Existe na tua obra artística um eclectismo muito grande. Como é moveres-te em universos artísticos tão díspares?

MIGUEL SILVA - Sim, é verdade. Movimento-me entre a pintura, a escultura, a assemblage, a produção de máscaras e a metalurgia. Por um lado, é bom porque quando me aborreço com o que estou a fazer, mudo para outra coisa, por outro lado, é mau porque provoca uma grande dispersão. No entanto, é desafiante porque o conhecimento de uma técnica permite-me explorar a outra numa perspectiva mais experimentalista, por vezes fundindo-as.

MUTES – Dentro dos géneros que exploras há algum que te seja mais caro?

MIGUEL SILVA - A assemblage é aquela com que me identifico mais. Gosto de todas, mas a assemblage permite-me explorar memórias pessoais e objectos que reflectem o impulso humano de manter e preservar. Combinando peças que encontro casualmente com peças que crio, traçando vidas passadas de objectos e materiais conto histórias que convergem com a minha narrativa pessoal.

MUTES – Alternas facilmente entre um e outro, ou tens períodos em que necessariamente tens de pintar ou esculpir?

MIGUEL SILVA - Sim, até rapidamente demais, mas tenho períodos em que necessariamente tenho que esculpir ou pintar para cumprir prazos, encomendas e exposições.

MUTES – Falando um pouco sobre a tua estética, o tema da vanitas, da efemeridade da vida, da morte, está muito presente. Queres falar um pouco sobre isso?

MIGUEL SILVA - Sim a questão da transitoriedade da vida, a percepção da finitude tem a ver com a “vanitas” e a “ars moriendi”, e remete-nos desde logo para um universo artístico do norte da Europa, particularmente dos Países Baixos, nos séculos XVI e XVII, numa época em que se tentava escapar do inferno ou mesmo do purgatório através de uma penitência genuína e do afastamento da vaidade humana. A palavra em latim “vanitas” significa “vacuidade, futilidade” e, em História de Arte, é interpretada como “vaidade”, como alusão à insignificância da vida terrena e à efemeridade da beleza humana, recorrentemente representada, na pintura da época, através da caveira. No fundo, relevam de um universo religioso e de culto de preparação para a morte que passa naturalmente pelo confronto com os nossos próprios medos e mais assustadores pesadelos. O medo primordial da morte, do descarnamento, da perda da beleza física, do afastamento dos bens materiais.

MUTES – Quem são os artistas que mais te influenciam?

MIGUEL SILVA – Jeronymus Bosh, Albrescht Dürer, Salvador Dali, R.H. Giger, Rauschenberg, entre outros.

MUTES – Na assemblage usas muito materiais orgânicos, animais dissecados, tons sanguínea, ferrugem. Qual a razão?

MIGUEL SILVA – Imprimem um efeito dramático, estabelecem uma forte carga emocional entre eles e o todo que supõe o seu conjunto.

MUTES – O facto de viveres na aldeia e te teres dedicado à vida rural de que forma se manifesta na tua obra?

MIGUEL SILVA - Permite-me ter acesso a muitos dos materiais orgânicos que utilizo, sendo que o nosso mundo rural, a interioridade transmontana, a rudeza e agrura da paisagem e do clima influenciam muito a minha obra, são as memórias de um passado quase genético que não teria noutro contexto.

MUTES – De onde vem a tua dedicação às máscaras? É uma influência regional?

MIGUEL SILVA – Não, por acaso não é, pelo menos de uma forma consciente. Nasceu de um desafio que me foi feito em 91 no Porto do qual resultou a minha primeira exposição de máscaras que por sinal eram todas em cerâmica. Desde essa altura a máscara foi uma constante na minha vida e sujeita a influências diversas, desde a máscara performativa da Comédia d'el Arte até à máscara do Teatro Nô. Mais tarde, quando voltei às minhas origens transmontanas, reencontrei a máscara tradicional transmontana tendo sido convidado para executar uma série para o Museu Ibérico da Máscara e do Traje. Desde essa altura, a máscara tradicional transmontana é também uma constante fonte de inspiração na minha obra.

MUTES – Ainda que faças máscaras tradicionais transmontanas há um carácter de inovação naquilo que fazes. Onde vais buscar essa inspiração?

MIGUEL SILVA - Apesar de manter a morfologia e a estrutura básica, bem como a simbologia inerente à máscara tradicional transmontana, de certa forma procuro incorporar-lhe um carácter de contemporaneidade. Uma vez que a tradição é um processo dinâmico que acaba por evoluir ao longo dos tempos, procuro inovar introduzindo materiais mais nobres, bem como uma nova abordagem estética na simbologia tradicional.

MUTES – Passando agora para o mercado de obras de arte, é possível viver da arte? Vendes facilmente as tuas obras? Há um nicho para aquilo que fazes?

MIGUEL SILVA – É possível viver da arte. Há nichos de mercado nos quais o meu trabalho é mais procurado, nomeadamente na máscara. Há certos públicos que são receptivos à minha obra, são mais sensíveis às minhas opções estéticas.



III – Breves Notas Biográficas


Miguel Moreira e Silva

https://www.facebook.com/miguelmoreiraesilva/

Nasceu em 1967, vive e desenvolve o seu trabalho em Bragança. Licenciado em Animação e Produção Artística desenvolve regularmente os seus trabalhos artísticos desde 1992, expõe de forma permanente em Bragança na galeria História e Arte e no Museu Ibérico da Máscara e do Traje, desde 2007.

Os seus trabalhos deambulam entre múltiplas técnicas das quais se destaca a pintura, assemblage e a escultura. Nas telas, o autor explora o contraste das cores cheias que se aplicam sobre figuras humanas. As figuras, tratadas como personagens tipo reflectem distintas tipologias de propaganda e aparato, denunciando os diferentes atributos e técnicas que em diferentes tempos e espaços provocaram o mesmo efeito de “fa stupire”.

A assemblage constitui uma técnica recorrente na experimentação artística de Miguel Silva que lhe permite explorar o ecletismo dos elementos que as incorporam traduzindo uma atitude livre de categorizações, espaço confortável para a prática do autor. Todos os detalhes estabelecem uma forte carga emocional entre eles e entre o todo que supõe o seu conjunto. São narrativas, episódios pessoais, memórias, diários visuais onde a plasticidade dos objectos e a carga simbólica das formas assumem o valor lexical do registo. O autor mistura elementos que sugerem o ritual, a catarse como processo de exorcismo. Confronta-nos o pesadelo e a agressividade na angulosidade e dureza de materiais. A uniformização das composições é sugerida na envolvência sanguínea que cobre a superfície dos objectos reunidos.


MUTES

http://mutespintor.blogspot.pt/

Mutes (César de Barros Amorim) nasce em França, Margny Les Compiegne em 1976, regressa a Portugal em 1986, reside actualmente em Arcos de Valdevez. È pintor autodidacta, expõe com regularidade desde 2004. Está representado em diversas colecções nacionais e estrangeiras em vários Continentes, é amante do Cubismo. Já ultrapassou mais de uma centena de exposições, nacionais e Internacionais. Já expôs na Suíça, Suécia, Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha e França, estes Países que já vão fazendo parte da sua caminhada . Em Outubro de 2016 recebeu o Prémio Art Prize Picasso no Museu do Louvre em Paris. 

A arte de Mutes remete-nos para o mundo primordial das infâncias do homem, onde a cor comunica com os nossos sentidos e as formas livres nos falam da vida e das lutas entre as sombras e a luz dos desejos. Cada figura que nasce numa tela de Mutes conta-nos uma história, grita-nos as injustiças da nossa sociedade, mostra-nos a luta entre o ter e o ser, aponta o dedo denunciador das elites e do seu poder, revela-nos o cinzentismo da alta finança em confronto com a miséria dos explorados e a alienação das massas pelos media e pelas novas tecnologias. Absorver todos os signos das figuras de Mutes não é um exercício fácil, ele obriga o observador a fazer um exercício de desconstrução do real imediato para o real exposto, a simbiose entre a animalidade dos desejos obscuros e os desejos sonhados. 

A primeira percepção da obra de Mutes ou é conquistada de imediato ou é assimilada após várias observações, onde se vai descobrindo cada figura, cada detalhe conforme Mutes se vai revelando na sua visão do mundo pictórico em percursos tortuosos da exposição que faz dos mundos dentro do mundo para onde nos encaminha e do qual somos parte e figurantes. Mas depois de nos conquistar e de nos introduzir nesse mundo dentro dos seus mundos, depois de assimilarmos os contornos da cor em simbiose com os ritmos, sentimos-nos parte dessas histórias, actores e participantes de um mundo sonhado e mutante onde a cor é signo de esperança e de alegria fraterna.


  • Partilhar