Leitura & Escrita

Mantenha-se informado das novidades



LEITURAS & ESCRITA – de Artista para Artista 2… TIAGO MADALENO ENTREVISTA JOANA PATRÃO.

LEITURAS & ESCRITA – de Artista para Artista 2… TIAGO MADALENO ENTREVISTA JOANA PATRÃO.

"pensar a paisagem na contemporaneidade" 

Entrevistas: Joana Patrão e Tiago Madaleno. Fotografia: Joana Patrão. Coordenação, Edição e Tradução: Isabel Patim. (Setembro 2018)


I – de Artista para Artista 2…

Neste segmento específico do separador ‘Leituras & Escrita’, convidam-se Artistas a conversarem com Artistas. Convido o Artista Entrevistador a apresentar uma paleta de seis perguntas ao convidado Artista a entrevistar. Inaugurada esta ‘curadoria de textualidades’, com os textos de Tiago Madaleno entrevistado pela artista Joana Patrão,  segue-se, agora a paleta de questões do artista Tiago Madaleno a Joana Patrão.

Let’s read!

Isabel Patim

II – Entrevista: Joana Patrão por Tiago Madaleno.

TIAGO MADALENO - Parece-me que o teu trabalho se alicerça em duas abordagens quase antagónicas: por um lado, parte do desafio de pensar a paisagem na contemporaneidade; por outro lado, vive de um forte pendor revisionista, que implica uma grande investigação e aprofundamento histórico da paisagem enquanto género e que muitas das vezes resulta no revisitar de técnicas ou abordagens do passado, como o cliché-verre por exemplo. Fala-nos um pouco do teu processo de trabalho, como é que este se articula?

JOANA PATRÃO - Antes de mais, não penso que essas duas abordagens sejam assim tão antagónicas, na verdade, o que me interessa é pensar a Paisagem como um modo de relação, mais do que como uma dada forma de representação. E colocando as coisas desse modo as imagens ou técnicas utilizadas refletem um modo particular de comunicar uma visão do mundo. Desta forma, penso que também o meu trabalho responde e é afetado pelas questões contemporâneas, por exemplo tentando seguir uma consciência ecológica que acredito ser necessária para abordar a questão da Paisagem neste momento. Além disso, a arte contemporânea caracteriza-se ainda por uma grande autoconsciência, daí que o desafio de pensar a paisagem na contemporaneidade inclua também, a meu ver, o diálogo com o seu percurso histórico.

Neste sentido, por exemplo, é diferente trabalhar a Paisagem depois da Land Art. Abriram-se mais possibilidades. A referência histórica permite ir procurar estratégias ou visões já utilizadas, estabelecendo um diálogo com esse estudo. A técnica do cliché-verre que referes foi desenvolvida pelos naturalistas no século XIX, em particular um grupo de pintores franceses que ficou conhecido como a Escola de Barbizon, que se refugiava na floresta de Fountainbleau para se evadir da cidade. A procura de uma transcrição directa da natureza, despojando-a de simbolismos ou idealismos, move-os, levando-os a sair do atelier e começar a pintar ao ar livre. Esta saída é importantíssima, surge como uma resposta ao afastamento e destruição da natureza e a uma vontade de romper com a tradição da Academia e dos géneros, na qual a Paisagem surgia como um dos menos relevantes. Numa época de rápidos desenvolvimentos em que surge a fotografia, o caso do cliché-verre é uma manifestação muito interessante do modo como alguns destes pintores incorporam essa nova técnica: como um registo de luz produzido pela natureza. A par da reprodução da imagem vista, da fidelidade ao real, o facto de a luz formar uma imagem, queimando o negativo, implicava um novo paradigma: a fotografia é o desenho da natureza sem a intervenção da mão do artista.

A técnica do cliché-verre seria um encontro entre os dois tipos de desenhos, entre o artista e natureza. A característica principal é que o negativo não é feito por uma sensibilização fotográfica, mas antes por um desenho ou pintura num vidro que depois é colocado sobre um papel fotossensível – as partes que permanecem transparentes ou semi-transparentes são queimadas pela luz solar, fazendo um desenho que é então simultaneamente do artista e potenciado por uma acção natural.

Quando utilizei essa técnica que, em certa medida, carrega este panorama que tentei explicar antes, pensei-a segundo uma dinâmica diferente, em que o desenho inicial seria também um desenho natural. No decorrer do projecto “Impressões marítimas” (2015 - ) tenho procurado fazer uma série de imagens que resultem de desenhos/pinturas feitas pelo mar – com uma placa de vidro pintada com tinta calcográfica solúvel em água (e não tóxica), levo a placa ao mar e o momento do impacto da onda fica impresso nessa placa. Neste trabalho o cliché-verre surge-me como uma forma de fazer com que todo o processo implique a natureza, desde a imagem inicial, à sua reprodução com a luz solar. O meu papel como artista é apenas o de criar condições para que a imagem apareça, utilizando o meu corpo como veículo, que leva a placa ao mar, que selecciona o processo, o momento, as condições e o contexto de apresentação, mas a feitura da imagem está concentrada na natureza, até porque a imagem em si vai-se alterando, surgem cristais de sal, por exemplo. Sendo assim, este trabalho teria até uma atitude mais relacionável com algumas manifestações Land Art, na forma como lida com processos e matérias naturais, como coloca na natureza esse foco de força criadora.

Acho que a partir deste exemplo é possível perceber também o modo como procuro pensar estas diferentes técnicas ou atitudes, vejo-as como possibilidades, que trazem o seu contexto, mas que também me permitem cruzá-las livremente, quase como se estas se organizassem num léxico ao qual se pode recorrer na construção de um discurso sobre Paisagem.

No meu processo de trabalho procuro, então, estratégias para estabelecer relações com a natureza, quer desenvolva trabalhos directamente em cenários naturais, quer sejam desenvolvidos no atelier, remetendo-me a processos naturais como evaporações, cristalizações, reacção das tintas, a análise de movimentos naturais, ou a rememoração de experiências e construção de novas paisagens.

Nestes contextos, penso o meu corpo como o veículo para comunicar essa relação, quer seja a entrar no mar ou a desenhar, percorrer a folha com a minha mão, repetir na tela gestos e acumular pinceladas. Para além de incluir manifestações naturais penso também na relação corpo-natureza ao evidenciar questões como a instabilidade do gesto, presente na irregularidade de uma linha que percorre uma extensão de folha e na qual a minha mão, ainda que treinada, não consegue evitar ceder e criar ondulações. Procuro, por outro lado, explorar analogias, por exemplo, entre a sedimentação, a acumulação de camadas de uma rocha, o sentido de um tempo extenso, e a acumulação de marcas num desenho, a sobreposição, o tempo alargado, mesmo que comparativamente mais pequeno, mas à escala de uma vida humana.

Essencialmente procuro essa consciência da Paisagem como uma relação, entre corpo-natureza que se poderá articular de múltiplas formas, pensando que os processos que dão origem às imagens são tão importantes quanto as imagens em si mesmas.

TIAGO MADALENO - O índice, o contacto directo com o real, parece ser uma estratégia recorrente no teu trabalho, e que acaba por representar um forte vínculo à fenomenologia, à valorização da experiência de envolvimento do sujeito com a natureza. No entanto, também é muito comum recorreres a processos que replicam fenómenos orgânicos – movimentos cíclicos, degradação –, que de alguma maneira vão interferindo na transcrição directa dessa memória experiencial. Descreve-nos um pouco estas duas abordagens e o que procuras com ambas? Como encaras esta tensão entre a tentativa de transcrição da experiência e a influência do meio no registo dessa memória?

JOANA PATRÃO - Como bem referiste o vínculo com a fenomenologia é fundamental, permite compreender que a nossa relação com o mundo não se faz a partir de uma mente distanciada, mas que se configura como uma troca constante. Experienciamos o mundo estando no meio dele e sendo parte dele. Esta relação de continuidade, não é só filosófica, mas matérica, somos feitos da mesmo tecido ou tela do mundo, como escrevia Merleau-Ponty. E é com todo o corpo que participamos e recebemos esse mundo. Dessa forma, a relação que parece mais pertinente na criação de imagens não será apenas a visual – a transcrição das aparências, mas antes uma que lide com uma dimensão processual, que possa envolver matérias naturais e onde as acções empregues vão além de uma relação mental. Compreendo o processo de criação de imagens desta forma, procuro que a própria transcrição da experiência lide com estas questões. E desta forma, a transcrição da experiência vai implicar sempre duas linguagens, é uma experiência de encontro e não a minha visão sobre as coisas inertes. Assim, quando os processos de degradação, alteração das cores, formação de cristais de sal por exemplo, vão aparecendo, não as encaro como interferências na transcrição da memória experiencial, mas antes como uma continuação, um prolongar no tempo dessa manifestação natural.

Da mesma forma, a utilização do índice, ou seja, uma relação com o referente da imagem que se dá por contacto directo, vestígio (como pegadas na areia), justifica-se pela necessidade de presença, quer minha quer do elemento da paisagem que quero representar. É diferente estar dentro do meu atelier a pintar uma imagem do mar, ou ter sido o próprio mar a marcar a minha tela. Dá-se o lugar a uma manifestação natural em vez de uma manifestação de virtuosismo minha. Ou, por exemplo, quando me deito sobre uma rocha na ilha de Suomenlinna, em “Mapas de toque” (2015), colocando uma folha entre mim e ela, propondo-me a fazer um mapa em tamanho real. A ideia é que essa experiência de encontro seja transcrita para a folha, pelo modo como aquele papel irá formar uma imagem, ou ser moldado, correspondendo simultaneamente às formações rochosas e à pressão do meu corpo. De alguma forma estas imagens funcionam como testemunhos de uma presença, são uma espécie de apologia do toque.

Invariavelmente, para que a imagem apareça terá sempre de haver um meio, e percebo que exista essa tensão entre a intenção de transcrever uma experiência e a influência do meio nesse registo, como falaste. Acho que essa é a condição de qualquer trabalho, há uma impossibilidade intrínseca na transcrição de uma experiência, de um evento, de uma memória, de uma imagem mental. Na mediação entre um ponto e outro há algo se perde, ou algo que se transforma. A questão é considerar que meio poderá melhor transcrever uma dada particularidade ou que meio queremos ver envolvido no trabalho e porquê. Por exemplo, numa outra fase do trabalho “Impressões Marítimas” (2015- ) utilizo chapas metálicas em vez de vidro. O processo inicial é semelhante, entro no mar com uma chapa tintada, a onda remove alguma tinta e deixa a sua imagem. A chapa como material traz algumas reacções, com a passagem do tempo, por exemplo, o sal corrói algumas partes da chapa, por outro lado, a luz reflectida sobre a superfície interfere na leitura da imagem, obrigando ao movimento e reagindo ao ambiente em que é exposto. A escolha do meio contempla já uma série de factores que não dizem respeito à experiência inicial, mas à possibilidade de uma alteração constante, para além do momento captado. Outra forma em que tal acontece pode-se encontrar ainda no trabalho “Impressões Marítimas”, no modo como o cliché-verre instaura a possibilidade de criar múltiplos, de reproduzir as ondas, numa analogia com o movimento perpétuo de repetição ondulatório, tornando, de alguma forma, o processo artístico próximo do natural.

Um outro trabalho que evoca o movimento cíclico de repetição, mas em que não há necessariamente um contacto inicial com um cenário natural ou um processo natural, chama-se “Diários. Um mar por dia”, desenvolvido desde o final de 2015. Os desenhos surgem de uma analogia entre a ondulação do meu gesto e a ondulação marítima, explorando o meu corpo como circunstância natural, o desenho forma-se segundo as ondulações próprias da repetição de linhas ao longo de uma folha. Propus-me a desenhar um mar todos os dias, pensando essa repetição como uma espécie de inserção ou identificação com um ciclo natural, aqui criado por mim.

Acho que desta forma consigo responder às intenções das duas abordagens que referiste na tua pergunta. Desde a experiência directa de contacto a uma experiência posterior que pode vir do modo como as mutações da imagem lhe dão uma vida para além do primeiro contacto ou do modo como eu tento compreender ou reencenar processos ou ciclos naturais.

Os trabalhos, elaborados em colaboração com Adriana Romero – “Noite Cósmica” (2017) e “Monte Olimpo” (2016), encontramos uma abordagem mais narrativa, que de alguma maneira difere das tuas propostas anteriores. Parecia denotar-se uma paisagem mitológica, que já não se apresenta como uma invocação dos comportamentos da natureza, nem tão pouco como uma sistematização das suas liberdades, como pareciam reflectir os teus trabalhos anteriores. O que pretendias explorar com a narrativa? Achas que a narrativa pode permitir expandir essa interação com a natureza de um espectro mais pessoal, mais subjectivo, para algo colectivo, partilhável?

JOANA PATRÃO - Sim, a forma como vejo esses trabalhos prende-se precisamente com a possibilidade de abrir a minha prática artística a outro tipo de relações para além das que já referi e que também apontaste agora. Na colaboração com a Adriana, o recurso à narrativa torna-se muito pertinente, é uma estratégia que ela utiliza muito no seu trabalho individual, através do vídeo ou dos livros de artista. A narrativa tem, para mim, o potencial de criar ligações inesperadas e de construir novos universos. Traz ainda, penso eu, uma maior facilidade de identificação ou de projecção por parte do espectador e nesse sentido os trabalhos podem tornar-se mais colectivos ou mais partilháveis, como dizes.

Também a intenção das imagens produzidas se altera nestes trabalhos. Enquanto no meu trabalho individual, as imagens se remetem a experiências específicas ou são resultado de relações circunstanciais, aqui a procura é por imagens mais transversais, imagens-arquétipo, por exemplo, a imensidão associada ao deserto, ou ao mar, ou ao universo. Interessa-nos a água e o fogo, a terra e o ar, como elementos imaginantes, criadores de imagens, como Gaston Bachelard explora na formulação de uma imaginação material, recuperando-os (como ele próprio diz) das filosofias tradicionais e das cosmologias antigas. Este tipo de abordagem ganha o potencial de ser relacionável com várias culturas e povos ao longo dos tempos, e é esse tipo de abrangência que pretendemos. A água, por exemplo, é identificada como a fonte de vida, a origem das formas, origem do mundo em diversos mitos da criação, formulados em culturas muito distintas. Este tipo de narrativa que surge da nossa experiência muito imediata do mundo, sem conhecimento científico, e que permite que identifiquemos o estado líquido da água com uma possibilidade de caos original, ou o ovo como concentrado de vida. É interessante perceber a recorrência de imagens ou modos de conceber o mundo, e esta última, a de um ovo que concentra todas as coisas e que eclode, existe em diferentes povos ancestrais, sem contacto entre si, mas também se aproxima das teorias científicas, como o Big Bang.

É desta forma que no trabalho “Sobre a noite cósmica” nos interessamos em tentar estabelecer um encontro entre uma ideia de paisagem mitológica – composta de imagens arquétipo associadas aos mitos da criação – e o universo científico – utilizando imagens geradas num âmbito laboratorial, experimental, ou elementos visuais que remetem para esse contexto. A narrativa surge aqui como uma modo de associação dessas imagens e também como o primeiro recurso para explicar o mundo. Vemos um corpo que navega no “oceano cósmico”, a partir do qual se dá o acto criador e a matéria começa a formar-se. O trabalho assenta nestas pequenas narrativas, complementadas por uma série de paisagens inventadas, quase em laboratório.

No trabalho “Monte Olimpo” a narrativa não está tão presente, mas é na instalação e nos cruzamentos entre imagens que formulamos uma paisagem não terrena. A instalação permite ancorar as imagens ou elementos, dando-lhes uma coesão que abre possibilidades relacionais. O espaço cénico, a escuridão dá uma maior possibilidade de imersão nesta paisagem que propomos – a ambiguidade ou a incerteza da origem das imagens permite que o próprio observador tenha de construir com base na sua experiência. Partimos de relações dialéticas, entre o micro e o macro, observando pormenores ao microscópio como se fossem paisagens vistas ao telescópio.

De formas distintas penso que são trabalhos que consideram mais uma dimensão participativa ou imersiva do espectador, procurando também tratar paisagens mais coletivas, mais abertas ao imaginário de quem as experiencie.

TIAGO MADALENO - O trabalho colaborativo parece que tem vindo a ganhar cada vez mais preponderância desde a tua residência na Finlândia, ao abrigo do programa Erasmus, em 2015. Fala-nos um pouco da tua experiência nesse país, de que forma este influenciou o teu trabalho? Para além disso, uma outra ideia se tornou mais presente no teu trabalho desde essa viagem: a da possibilidade da paisagem como um diálogo com a natureza. Ao invés de uma postura apropriacionista ou impositiva, que apenas retira ou intervém na natureza, parece que agora procuras que os teus trabalhos instaurem ciclos de troca com o natural. Nas tuas paisagens já não existe lugar para a passividade: nem a natureza apenas espera ser captada, pelo contrário ela interfere, ela regista, ela manifesta-se, nem a paisagem pretende apenas fixar, ela parece querer imitar gestos e não imagens, parece querer pertencer ao mundo e não ao museu. Denota-se nesta atitude um forte cariz ambientalista e político. Como encaras essa postura mais activista presente no teu trabalho?

JOANA PATRÃO - Começando por responder ao impacto da experiência na Finlândia, diria que esta se revelou importante em muitos níveis, desde a vivência do país, em particular Helsínquia e Espoo, à experiência da Faculdade (a Aalto School of Arts, Design and Architecture) e as pessoas que encontrei. Convivendo com finlandeses e vivendo mesmo que num período relativamente curto lá, dá para perceber que há um modo muito particular de relação com a natureza, por exemplo, na forma como esta é respeitada e celebrada, como os parques e espaços verdes se enchem mal haja um pouco de sol, como desde cedo estão habituados a caminhar pelos bosques, a fazer atividades ao ar livre no geral. Penso que isto também se relaciona com a forma como os ciclos naturais, a passagem das estações, são mais notórios: as temperaturas descem muito, a presença da neve cobre tudo, com os lagos e mar Báltico congelado, a perda progressiva da luz no Inverno. Por outro lado, o entusiasmo pelo verão, o calor extremo da sauna, a festa da chegada da Primavera. A relação com a natureza sente-se ainda nalgumas das obras nacionais mais importantes, por exemplo, o épico “Kalevala” do Lönnrot, que parte de uma recolha de histórias de tradição oral e que se inicia com um mito criador, ou as peças do compositor Jean Sibelius inspiradas em sons da natureza e na mitologia do Kalevala. Todo este universo, o tipo de sensibilidade com que contactei, marcou-me muito.

Relativamente ao trabalho colaborativo, este surge muito do próprio modelo de educação que se apoia numa lógica de colaboração, interacção, participação e partilha como ferramentas para a aprendizagem, mais do que o desenvolvimento individualizado ou o formato mais expositivo.

Houve uma disciplina que foi particularmente relevante para mim e para que a possibilidade de diálogo com a natureza fosse incorporada no meu pensamento e trabalho artístico. Chamava-se “Interspecies Dialogue”, leccionada pela professora e artista Saara Hannula. Ela forneceu-nos uma série de textos muito interessantes, acompanhados de exercícios práticos em que deveríamos explorar formas ou possibilidades de estabelecer diálogos com entidades não-humanas, refletir sobre as questões éticas associadas e abrir a possibilidade de reconhecer uma identidade às coisas e seres naturais.

Esta experiência levou-me a perceber que poderia construir trabalhos que fossem produto de encontros, relações muito específicas com a natureza, de reciprocidade.

Dois dos trabalhos que fiz no contexto dessa disciplina foram os “Mapas de toque”, que já referi, e “O encontro. Lágrimas”. Estes acabaram por ser trabalhos muito íntimos de relação com a natureza e com um modo de intervenção subtil. Este último partia da procura de uma linguagem comum, procurando um elemento essencial da minha composição que seria também essencial na composição do mar – o sal. Chego assim ao acto simbólico de oferecer as minhas lágrimas ao Mar Báltico. É um acto que contém um significado duplo, o Mar Báltico é um dos mares mais poluídos e também um dos menos salgados — lamenta-se a sua poluição e, ao mesmo tempo, ao dar-lhe sal, faz-se do mar mais mar.

Tendo em conta estes dois trabalhos, penso que o cariz ambientalista e político a que te referes tem de ser enquadrado. O que está em causa para mim é uma acção mais subtil, mais poética ou sensível, que penso que por vezes poderá até ser mais eficaz do que um tipo de abordagem mais panfletária ou denunciatória. Há uma artista finlandesa, a Tuija Kokkinen, que fala precisamente da forma como estas acções subtis podem ser mais eficazes na representação de atitudes de maior humildade, de uma vulnerabilidade perante a natureza, repensando relações de poder, como a ideia de domínio ou de posse da natureza, dando lugar a relações de reciprocidade ou de continuidade, fundamentais para mudar o curso da crise ambiental que sofremos. Penso que há lugar para todo o tipo de abordagens e o ativismo é importantíssimo pelo trabalho de denúncia, de combate judicial, de sensibilização através de apresentação de factos. No contexto das artes plásticas, contudo, prefiro uma via que tente lidar com o que há de característico na experiência artística, a possibilidade de lidar com o indizível, de apresentar outras formas de nos relacionamos com o mundo, e no modo como experiências artísticas têm um potencial incrível na alteração de sensibilidades e consciências, tanto ou mais do que o conhecimento factual.

Essa discussão sobre o ativismo no contexto artístico estava muito presente na faculdade, através dos professores e dos meus colegas, e cheguei mesmo a colaborar com os Friends of the Earth Finland, uma ONG ambientalista. Havia por parte desta organização e de um grupo em especial (watergroup) a vontade de chegar a mais pessoas através de um trabalho que procurasse um nível mais simbólico, artístico, que pudesse ser mais eficaz para agitar consciências. Juntamente com dois colegas, o Emilio Zamudio e a Sade Hiidenkari, desenvolvemos o projecto “Water Circles”, que foi apresentado no “Social Forum Finland 2016”, que reunia diferentes ativistas, académicos, participantes de vários contextos. Depois de debates e discussões teóricas e apresentações, a nossa acção foi levada a cabo, procurando uma experiência que lidasse com uma sensibilidade que se refere a um nível de compreensão distinta do processamento mais abstracto de informação. A acção partia da proposta colocada a cada participante de trazer água de uma fonte próxima de si e falar sobre essa água e da sua relação com ela, nalguns casos essa água era visivelmente poluída, trazendo uma imagem muito poderosa, capaz de demonstrar, num outro nível locais em foco nos debates. Ao partilhar essas águas e misturá-las num recipiente comum, num acto colectivo, há uma dimensão simbólica que se activa e ao mesmo tempo traz-se um plano material para a discussão. Para além de experiências e colaborações circunscritas ao museu, penso que poderá ser também neste campo que as experiências artísticas poderão funcionar.

TIAGO MADALENO - Como inseres a tua abordagem à temática da paisagem no espectro contemporâneo? Quais as tuas maiores referências nacionais e internacionais?

JOANA PATRÃO - É um pouco difícil definir a minha prática dentro de um contexto tão abrangente, penso que vou tentando estar atenta às várias possibilidades e vertentes da abordagem à paisagem contemporânea, entre a bio-arte, os cruzamentos entre arte e ciência, a paisagem como referência histórica à pintura, a sua função mais social, o potencial de repensar relações entre humano e natureza, a discussão sobre o antropoceno. Vou tentando perceber como me posso situar por aí, tentando absorver um pouco disso tudo. Penso que terei uma linha definidora, mas vou tentando encarar cada trabalho como uma oportunidade para explorar novas relações, um pouco como já vim a falar. Daí que o meu trabalho não se desenvolva só numa técnica, há uma ideia de investigação mutável que, como tenho dito noutras ocasiões, encontra no mar a fonte de uma fluidez criativa. O mar tornou-se para mim um reservatório de metáforas e simbolismos, de relações dialéticas, de devastação e acalmia, que forma e destrói, une e separa. Enquanto circunstância geográfica serve de separação e de cruzamento, é inspiração mitológica e poética, guarda inúmeros mistérios nas profundezas, com locais e fontes potenciais de vida desconhecidas, é também campo de trabalho e sustento, ou de exploração massiva, é alvo de poluição, indicador do degelo e das alterações climáticas. Tudo isto condensa-se num campo simbólico infindável, ao qual ainda se adiciona uma relação histórica com o nosso país, potencial de encontro e cruzamento cultural, mas também o veículo de violência e exploração. Todas estas tensões e contextos interessam-me e dão-me uma ideia de como me poderei inserir no estudo contemporâneo da Paisagem.

Relativamente às minhas referências artísticas, encontro-as em diferentes áreas. Penso que as mais importantes nem têm tanto a ver com uma proximidade do trabalho, mas mais com a forma de entender a prática artística. Por exemplo, para mim o Alberto Carneiro é uma grande influência, em especial o seu texto “Notas para o manifesto de uma arte ecológica”, também a dimensão experiencial do trabalho, o trazer da natureza para o museu.

Noutra perspectiva, e continuando no território nacional, a dupla João Maria Gusmão e Pedro Paiva, interessam-me pela atitude experimental, pela forma como jogam com o universo científico, propondo uma relação com a ficção, poesia, com explicações do mundo metafísicas ou filosóficas, anteriores à ciência moderna. Também a dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela, pela criação de ambientes visuais, sensoriais, o cruzamento de vídeo, filme, desenho e pintura, o encontro com a natureza como provocador da imaginação, convocando um universo mágico, mitológico.

Recentemente descobri o trabalho do Pedro Neves Marques, na exposição individual “Aprender a viver com o inimigo”, no Museu Berardo. Interessou-me a forma como reconhece e trabalha as tensões e encontros entre natureza/tecnologia, colonizador/colonizado, humano/não-humano, em múltiplas camadas de significação, questionando o que cada um destes termos representa, produzindo ensaios escritos, ensaios fílmicos, entre o documentário e a ficção.

A nível internacional, tenho como referências alguns artistas da Land Art, em especial Richard Long, pelas relações muito elementares, desde o acto de caminhar, o uso do corpo como medida da paisagem, o uso da lama como concentrado de tempo, água, sedimentos, a recolha e reorganização de matérias naturais, transportando-as para o museu, convocando formas elementares como o círculo ou a linha.

O contacto com o trabalho do Bill Viola, também me influenciou bastante, principalmente após a leitura do “Reasons for Knocking at an Empty House”, um conjunto de apontamentos, de esboços, ensaios sobre o seu processo de trabalho, preocupações e referências. Foi através dele que cheguei ao contacto com diferentes filosofias e sistemas de crenças, desde o taoismo, o budismo, o misticismo, o xamanismo e percebi outras possibilidades de conceber as relações entre humano e natureza. Interessa-me ainda o modo como o seu trabalho lida com paisagens interiores/exteriores, criando cenários imersivos, trazendo relações meditativas e de envolvência.

Ainda a Tacita Dean, na relação com a paisagem, com fenómenos naturais de transição que tenta registar em filme, o interesse por naufrágios, pela paisagem marítima, o uso do “desenho cinemático”, nos grandes painéis negros desenhados a giz.

Outra artista, que descobri recentemente, é a Irene Kopelman, que em termos de estratégias é capaz de ser até a mais próxima das que uso no meu trabalho, na relação com a paisagem e a viagem, a procura por desenhos e pigmentos naturais e no recurso ao índice, por exemplo.

Haverá outros artistas importantes, que poderão ser mais pertinentes ou influentes consoante os trabalhos que esteja a desenvolver, mas penso que com este conjunto já dá para ter alguma ideia das minhas referências contemporâneas.

TIAGO MADALENO - Como tens continuado a tua investigação e prática artística? Fala-nos um pouco do que tens feito e do que pretendes fazer no futuro.

JOANA PATRÃO - Depois de ter terminado o Mestrado tenho tentado continuar a desenvolver a minha prática artística, mais mediante propostas específicas ou da participação em exposições, residências artísticas. Há alguns trabalhos que continuo a desenvolver, como o “Diários. Um mar por dia” e vou procurando estímulos para novos trabalhos.

Paralelamente tenho feito investigação teórica na área de estudo da Paisagem, no contexto da Unidade de Formação Contínua teórico-prática que comecei a leccionar na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Chama-se “Pintura de Paisagem: da experiência da Natureza à construção pictórica”, que trata o tema da Paisagem na pintura reflectindo sobre o modo como esta surge em diferentes contextos históricos, como se vai desenvolvendo culturalmente e refletindo-se em técnicas e modos de conceber o mundo em imagens.

Num futuro, não sei se muito próximo, penso fazer o doutoramento. Acho que pode ser uma boa forma de continuar esta via mais investigativa. 

Por agora gostava de continuar a desenvolver o trabalho artístico fora desse contexto académico, tentando encontrar mais cruzamentos e colaborações, através de residências artísticas ou de outras propostas que possam surgir. Neste próximo ano gostaria de me concentrar mais isso. Estou a pensar também nalguns projectos em que possa desenvolver mais o universo marítimo e a paisagem colectiva.

 Joana Patrão e Tiago Madaleno

(Setembro 2018)


III – Breves Notas Biográficas

Joana Patrão

http://cargocollective.com/joanapatrao

Nasceu a 17 de Abril 1992 em Barcelos, vive e trabalha no Porto. Enquanto artista plástica, tem desenvolvido uma investigação que considera a Paisagem como processo natural e simbólico. O seu trabalho surge da incorporação de processos/poesias naturais e da sua posterior reencenação, na procura de um modo de investigação mutável, que oscila entre meios distintos e que encontra no Mar o motivo de análise e origem de uma fluidez criativa.

Como parte desta investigação, concluiu, em 2016, o Mestrado em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto com o projeto “A Paisagem enquanto experiência. Mar: Imersão e Viagem”. Em 2015, ao abrigo do programa Erasmus+, estudou no Mestrado em Visual Culture and Contemporary Arts na Aalto University, Finlândia e foi selecionada para o workshop internacional “Adaptations – Utö. Site, Stories and Sensory Methods, Multidisciplinary Workshop”, Utö, Arquipélago de Turku, Finlândia, promovido pelo HIAP - Helsinki International Artist Programme. Participou nas residências artísticas “Laboratórios de Verão” (2017), gnration, Braga; “Artistas emergentes Europeus” (2017), VIII FIGAC, Viana do Castelo e Feinprobe Honigsüss 7 (2014), Wbmotion, Wittenberg, Alemanha. Expõe regularmente desde 2014, destacando-se as exposições: “Orvalho III” (2018), Silo - Espaço cultural, Porto; “Incerta Desambiguação / Catarse” (2017), Galeria Zaratan, Lisboa; “Reencenação à distância” (2017), Galeria Brevemente, org. Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo; "C U V E T E '17" (2017), Snow Cannon, Aveiro; “Sobre a noite cósmica” (2017), gnration, Braga [parceria com Adriana Romero]; "Lethes Art – Memórias & Identidade(s) (2017), Ponte de Lima; “A Paisagem enquanto experiência. Mar: Imersão e Viagem" (2016) (exposição de Mestrado), Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto. “Immersion. Experiments” (2015), ADD.Lab, Espoo, Finlândia [em parceria com Blanca Domínguez Cobreros, Elena Burseva, Parsa Kamehkhosh] ; “sem” (2015), Galeria Painel, Porto [parceria com Maria da Graça Fernando]; “Pausa” (2014), Edifício AXA, Avenida dos Aliados, Porto; “Projeções 2014” (2014), Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, Gondomar. Tem participado em várias apresentações públicas e publicações.

Destaca-se a participação no 10º Encontro de Investigação Jovem da Universidade do Porto (IJUP) (2017) e no livro “Sobre Pintura”, coordenado por Sofia Ponte, com o artigo “A Pintura Enquanto Meio de Relação com o Natural. Paisagem” (2017). No início de 2018, integrou ainda um ensaio visual presente na primeira edição em papel da Revista Contemporânea (fev. 2018).

Tiago Madaleno

http://cargocollective.com/tiagomadaleno

Nasce em Vila Nova de Gaia, a 24 de Agosto de 1992, onde vive e trabalha. É Mestre em Pintura (2016) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde conclui a licenciatura em Artes Plásticas, Ramo Pintura (2010-2014). Fez parte da direção do projeto curatorial Galeria Painel, Porto, entre 2015-2016 (cargocollective.com/painel). Vencedor do Prémio NOVO BANCO Revelação 2017, que tem como objetivo incentivar a produção e criação artística de jovens talentos portugueses, tendo por base uma lógica de divulgação, lançamento e apoio a todos os artistas que recorram ao meio da fotografia.

Tiago Madaleno tem vindo a desenvolver uma investigação teórica e prática acerca da relação de tensão e diálogo que as imagens pictóricas, enquanto documentos, estabelecem com contextos performativos. A produção do seu trabalho desenvolve-se através da construção de ficções, invocando uma abordagem multimodal, em que imagens vão dialogando através das soluções propostas por diferentes meios, como forma de se expandirem e potenciarem. Reflete-se sobre a dimensão especulativa da memória, de carácter narrativo e suplementar, como estratégia simultânea de manutenção e revitalização do conteúdo do documento.

Destacam-se as exposições: INDIVIDUAIS – "Clépsidra" (2017-2018) (exposição NOVO BANCO Revelação), Fundação de Serralves, Porto. "Clepsidra - Imagem, Documento e Acção” (2016)(exposição de Mestrado), Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto. “Do Sopro para o Caule” (2016), Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, Gondomar. COLETIVAS – Lethes Art 2017 – Memória(s) & Identidade(s), (jul.-set. 2017), Ponte de Lima. “,”(vírgula) (2016), Galeria Painel, Porto. “Cubiculum Mirabilia” (2016) (trabalho em parceria com José Costa), Museu Geológico de Portugal, Lisboa. “Complexion I” (2015), Laboratório das Artes, Guimarães. “Reunião” (2015), Palacete Pinto Leite, Porto. “É tudo tão ____________. E agora?” (2014), Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto. “Pausa” (2014), Edifício AXA, Avenida dos Aliados, Porto (catálogo). “Pintura e(m) processo” (2014), Fórum da Maia, Maia. “Projeções 2014” (2014), Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, Gondomar.

Isabel Patim

isabelpatim@gmail.com ; lethesartcuradoria@gmail.com

Professora universitária. Investigadora do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Curadora do Lethes Art Ponte de Lima. Último projeto: Membro do projeto europeu de ensino-aprendizagem de idiomas EUFICCS 2012-2015 (European Use of Full-Immersion, Culture, Content, Service approach for Language Learning).


BIBLIOGRAFIA:

Madaleno, T. , Patrão, J., Patim, I. (2018). “Leituras & Escrita – de Artista para Artista 1 : Joana Patrão entrevista Tiago Madaleno”. Coord. e Ed. Isabel Patim, Lethes Art Ponte de Lima. [Em linha]. Disponível em: http://www.lethesartpontedelima.com/leituras-e-escrita. [Consultado em xx-xxx-xxxx].

Como referir este artigo:

Patrão, J., Madaleno, T. , Patim, I. (2018). “Leituras & Escrita – de Artista para Artista 2 : Tiago Madaleno entrevista Joana Patrão”. Coord. e Ed. Isabel Patim.”, Lethes Art Ponte de Lima. [Em linha]. Disponível em: http://www.lethesartpontedelima.com/leituras-e-escrita. [Consultado em xx-xxx-xxxx].








  • Partilhar