Leitura & Escrita

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LEITURAS & ESCRITA  – de Artista para Artista…

LEITURAS & ESCRITA – de Artista para Artista…

Joana Patrão entrevista Tiago Madaleno:  “encontrar tempo e espaço para conseguir contar toda a narrativa".


Artistas Convidados: Joana Patrão e Tiago Madaleno. I Entrevistas: Joana Patrão e Tiago Madaleno.  I  Coordenação, Edição e Tradução: Isabel Patim.


 I – Introdução: de Artista para Artista…

Neste segmento específico do separador ‘Leituras & Escrita’, convidam-se Artistas a conversarem com Artistas. Convido o Artista Entrevistador a apresentar uma paleta de seis perguntas ao convidado Artista a entrevistar. Para inaugurar esta ‘curadoria de textualidades’, editam-se os textos dos Artistas Joana Patrão e Tiago Madaleno.

Será difícil apagar da memória a relação destes dois Artistas com a sua Arte, privilégio que tive oportunidade de observar no âmbito da sua participação na I Mostra Internacional de Arte Contemporânea Lethes Art Ponte de Lima 2017, durante o processo de montagem. As inúmeras narrativas que Tiago Madaleno nos trouxe à mão, e à leitura, confiando-nos não só as suas produções artísticas, mas também as inúmeras possibilidades da instalação que se propunha conceber no espaço que lhe foi atribuído, um dos Salões Nobre da Casa da Garrida-UFP, mereceram a minha inquietude que, definitivamente não terminou na Mostra Lethes Art 2017 – prolonga-se neste desafio que lancei ao Artista de ser entrevistado pela Artista Joana Patrão. A ambos, o meu muito obrigada!

Tiago Madaleno respondeu ao desafio da Proposta Conceptual do Lethes Art Ponte de Lima 2017, intitulada “Memória(s) & Identidade(s)”, de uma forma surpreendente: “O papel da memória como espaço de coexistência do passado e do presente tem representado um desafio para muitos artistas nos últimos anos. Muitas dessas obras de arte são talhadas pelas memórias das culturas dos próprios artistas, as suas identidades, bem como pela história do, ou vida atual no, espaço que habitam. Questionar como a memória participa e emerge na prática artística e, em última instância, nas obras de arte, bem como a posição da memória e a sua relação com a arte contemporânea, e a sua perceção, é o desafio da curadoria e da edição do Lethes Art 2017.”  (Patim, 2017a)

Os três trabalhos expostos na Mostra Internacional de Arte Contemporânea Lethes Art Ponte de Lima 2017, subordinada à proposta concetual ‘Memória(S) & Identidade(s)’, patente de 1 de julho a 30 de setembro, surgem, de acordo com o artista, “como reflexões sobre o potencial especulativo da memória enquanto ferramenta narrativa. Tal como proposto pelo conceito de Rumor calculado de Allan Kaprow (1966), a preservação dos eventos está dependente da sua circulação, transformação, uso. Para permanecer vivo, um evento tem que se transformar num elemento fabulástico, permitir-se à metamorfose, e abraçar essas novas possibilidades como parte constituinte da sua identidade original. É neste sentido que estes três trabalhos se propõem pensar o enredo, como a capacidade da memória para organizar os dados como coisa viva.”  (Patim, 2017b). Para esta Mostra Internacional de Arte Contemporânea, Tiago Madaleno trouxe três abordagens distintas, com os trabalhos “Do Sopro para o Caule”, “Canto I – Lançamento” e “Canto II – Viagem”.

O trabalho Do Sopro para o Caule explora a reencenação de uma performance invocando o diorama, da criação de um contexto visual. Através de um conjunto de pistas do que aconteceu convida-se o espetador a reproduzir a sua performance enquanto jogo mental. Como referi na Narrativa do Arquivo Municipal, a instalação de Tiago Madaleno, “Do Sopro para o Caule”, cuja técnica conjuga a fotografia, o desenho e a pintura, apresenta-se, nas palavras do artista, como uma especulação narrativa em torno da tentativa de construir um dispositivo que permita coincidir o gesto de soprar com o crescimento de um caule de girassol: “Ao invés de reproduzir o evento, opta-se por reconstrui-lo através dos diversos momentos que o compõem – a antevisão do gesto através da simulação na instrução; a sua presença enquanto objecto/instrumento que permite o gesto, e o momento posterior ao gesto, através das imagens resultantes da acção” (Ibid.), problematizando-se desta forma a percepção e a memória de uma ação, os diferentes tempos que possui, e as possibilidades de expansão enquanto imagem.

Com a obra “Canto I – Lançamento”, através de uma fotografia analógica e uma notícia de jornal, o artista reflete sobre a pós-memória (aftermath) de um evento, sobre o potencial interventivo dos documentos na construção da sua identidade, onde “a fotografia surge já como uma memória em terceiro grau (pós- evento e pós reencenação do evento)”. (Ibid.).


FOTO

“Canto II – Viagem”, de Tiago Madaleno.

(Visita de Estudo da Universidade Sénior de Barcelos ao Lethes Art  Ponte de Lima, na Casa da Garrida-UFP, com a Artista Flávia Costa, em Setembro 2017. Photo: Isabel Patim)


Notícias de jornal e fotografia analógica instalam a proposta de Tiago Madaleno, “Canto II - Viagem”, exibida num dos salões nobre da Casa Da Garrida—UFP, explora, de acordo com o artista, a memória de um evento enquanto jogo associativo, utilizando o atlas como ferramenta potenciadora de novas histórias: fotografias, desenhos e pinturas compõem a instalação, de dimensões variáveis, dependendo do espaço de montagem. O trabalho consiste num atlas de desenhos que, como refere Madaleno, “Mais que um gesto que procura recuperar o que foi o evento, o gesto de documentar surge nestes três trabalhos como um gesto de vitalidade, como o assegurar da sua permanência enquanto memória colectiva”. (Ibid.)

Let’s read!

Isabel Patim 
(Março 2018)


II – Introdução: breves Notas Biográficas


Tiago Madaleno

http://cargocollective.com/tiagomadaleno

Nasce em Vila Nova de Gaia, a 24 de Agosto de 1992, onde vive e trabalha. É Mestre em Pintura (2016) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde conclui a licenciatura em Artes Plásticas, Ramo Pintura (2010-2014). Fez parte da direção do projeto curatorial Galeria Painel, Porto, entre 2015-2016 (cargocollective.com/painel). Vencedor do Prémio NOVO BANCO Revelação 2017, que tem como objetivo incentivar a produção e criação artística de jovens talentos portugueses, tendo por base uma lógica de divulgação, lançamento e apoio a todos os artistas que recorram ao meio da fotografia.

Tiago Madaleno tem vindo a desenvolver uma investigação teórica e prática acerca da relação de tensão e diálogo que as imagens pictóricas, enquanto documentos, estabelecem com contextos performativos. A produção do seu trabalho desenvolve-se através da construção de ficções, invocando uma abordagem multimodal, em que imagens vão dialogando através das soluções propostas por diferentes meios, como forma de se expandirem e potenciarem. Reflete-se sobre a dimensão especulativa da memória, de carácter narrativo e suplementar, como estratégia simultânea de manutenção e revitalização do conteúdo do documento.

Destacam-se as exposições: INDIVIDUAIS – "Clépsidra"  (2017-2018) (exposição NOVO BANCO Revelação), Fundação de Serralves, Porto.  "Clepsidra - Imagem, Documento e Acção” (2016)(exposição de Mestrado), Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto. “Do Sopro para o Caule” (2016), Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, Gondomar. COLETIVAS – Lethes Art 2017 – Memória(s) & Identidade(s), (jul.-set. 2017), Ponte de Lima. “,”(vírgula) (2016), Galeria Painel, Porto. “Cubiculum Mirabilia” (2016) (trabalho em parceria com José Costa), Museu Geológico de Portugal, Lisboa. “Complexion I” (2015), Laboratório das Artes, Guimarães. “Reunião” (2015), Palacete Pinto Leite, Porto. “É tudo tão ____________. E agora?” (2014), Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto. “Pausa” (2014), Edifício AXA, Avenida dos Aliados, Porto (catálogo). “Pintura e(m) processo” (2014), Fórum da Maia, Maia. “Projeções 2014” (2014), Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, Gondomar.


Joana Patrão

http://cargocollective.com/joanapatrao

Nasceu a 17 de Abril 1992 em Barcelos, vive e trabalha no Porto. Enquanto artista plástica, tem desenvolvido uma investigação que considera a Paisagem como processo natural e simbólico. O seu trabalho surge da incorporação de processos/poesias naturais e da sua posterior reencenação, na procura de um modo de investigação mutável, que oscila entre meios distintos e que encontra no Mar o motivo de análise e origem de uma fluidez criativa.

Como parte desta investigação, concluiu, em 2016, o Mestrado em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto com o projeto “A Paisagem enquanto experiência. Mar: Imersão e Viagem”. Em 2015, ao abrigo do programa Erasmus+, estudou no Mestrado em Visual Culture and Contemporary Arts na Aalto University, Finlândia e foi selecionada para o workshop internacional “Adaptations – Utö. Site, Stories and Sensory Methods, Multidisciplinary Workshop”, Utö, Arquipélago de Turku, Finlândia, promovido pelo HIAP - Helsinki International Artist Programme. Participou nas residências artísticas “Laboratórios de Verão” (2017), gnration, Braga; “Artistas emergentes Europeus” (2017), VIII FIGAC, Viana do Castelo e Feinprobe Honigsüss 7 (2014), Wbmotion, Wittenberg, Alemanha. Expõe regularmente desde 2014, destacando-se as exposições: “Orvalho III” (2018), Silo - Espaço cultural, Porto; “Incerta Desambiguação / Catarse” (2017), Galeria Zaratan, Lisboa; “Reencenação à distância” (2017), Galeria Brevemente, org. Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo; "C U V E T E '17" (2017), Snow Cannon, Aveiro; “Sobre a noite cósmica” (2017), gnration, Braga [parceria com Adriana Romero]; "Lethes Art – Memórias & Identidade(s) (2017), Ponte de Lima; “A Paisagem enquanto experiência. Mar: Imersão e Viagem" (2016) (exposição de Mestrado), Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto. “Immersion. Experiments” (2015), ADD.Lab, Espoo, Finlândia [em parceria com Blanca Domínguez Cobreros, Elena Burseva, Parsa Kamehkhosh] ; “sem” (2015), Galeria Painel, Porto [parceria com Maria da Graça Fernando]; “Pausa” (2014), Edifício AXA, Avenida dos Aliados, Porto; “Projeções 2014” (2014), Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, Gondomar. Tem participado em várias apresentações públicas e publicações.

 Destaca-se a participação no 10º Encontro de Investigação Jovem da Universidade do Porto (IJUP) (2017) e no livro “Sobre Pintura”, coordenado por Sofia Ponte, com o artigo “A Pintura Enquanto Meio de Relação com o Natural. Paisagem” (2017). No início de 2018, integrou ainda um ensaio visual presente na primeira edição em papel da Revista Contemporânea (fev. 2018).



Isabel Patim

isabelpatim@gmail.com ; lethesartcuradoria@gmail.com

Professora Convidada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Estudos Canadianos). Professora Associada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Fernando Pessoa. Investigadora do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Curadora do Lethes Art Ponte de Lima. Formação académica: Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1990). Doutoramento em Filologia Inglesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade de Santiago de Compostela e da Universidade do Porto (2000). Membro fundador do CLCL (Centro de Línguas, culturas e literaturas) da UFP-Ponte de Lima (2001). Investigadora em residência em universidades canadianas como bolseira do ICCS (International Council for Canadian Studies) em Ottawa, em duas investigações pós-doutoramento (2001 e 2005). Membro da equipa de Investigação de John Havelda, e com Manuel Portela, como bolseiros do ICCS (2003). Professora em mobilidade ao abrigo do programa Erasmus em diversas universidades europeias. Autora de várias publicações, livros e ensaios, e conferencista em inúmeras conferências nacionais e no estrangeiro. Participação e organização de vários eventos artísticos e suas textualidades. Organiza, e coordena as edições dos Encontros de Estudos sobre Ciências e Culturas (Literatura & Medicina 2003, Literatura e Ambiente 2006, Literatura e Religião 2007, Literatura e Geografia 2009, Literatura e Jogo 2014). Membro do projeto europeu de ensino-aprendizagem de idiomas EUFICCS 2012-2015 (European Use of Full-Immersion, Culture, Content, Service approach for Language Learning).


III – Entrevista: Tiago Madaleno por Joana Patrão.

JOANA PATRÃO - Na base do teu trabalho encontramos frequentemente uma construção narrativa, que se desenvolve em pequenas histórias ou na resolução de situações específicas. Como chegas a estas narrativas e como defines o seu fio condutor? Fala-nos um pouco do teu processo criativo.

TIAGO MADALENO – O meu projeto estrutura-se em torno de uma grande narrativa, dividida em cinco Cantos, que explora de que forma uma Máquina de semear luz perdeu a sua função e se transformou numa outra coisa. Eu imaginei este dispositivo utópico, uma espécie de sonho modernista que nunca é totalmente apreendido ou mostrado, para pensar sobre o processo de fazer imagens, sobre o processo de mitificação das mesmas, sobre a sua relação com uma ideia de função, com a possibilidade de estas se envolverem com contextos performativos.

Em cada um dos cinco Cantos são exploradas relações de tensão entre três elementos que estão sempre em diálogo ao longo da narrativa – a Imagem da Máquina, o Corpo dos personagens envolvidos em cada momento e o Espaço em que cada episódio se desenvolve. Partindo destes elementos, o meu trabalho foca-se na criação de situações performativas e no papel do documento enquanto agente que permite a sua revisitação e (re)construção. Recorrendo a uma abordagem multimodal procuro refletir na relação que as imagens, enquanto ferramentas mnemónicas, estabelecem com contextos performativos: de que forma o meio escolhido para documentar uma ação transforma a sua experiência temporal? De que forma o meio escolhido para documentar uma ação contém em si elementos que permitem descodificar um sentido/metáfora do evento original? Como pode o documento, elemento que busca preservar um dado fenómeno passado, conter em si um potencial para a ação?

Esta é a minha “Torre de vigia”, digamos assim, a estrutura que me permite ter uma perceção enquanto autor, de como organizar as minhas ideias e imagens, porque, na verdade, o processo de trabalho é muito mais convulso e menos linear, com muito poucas certezas de para onde devo avançar. É bastante comum existir uma reflexão em torno de várias ideias ou histórias em simultâneo, que se prestam ao contágio. Histórias estas que podem vir de contextos também muito diversos – desde narrativas completamente inventadas por mim, que procuram jogar num limbo de credibilidade, entre a realidade e a ficção, até eventos ou personagens de que me aproprio – como o que estou a desenvolver no meu trabalho mais recente - em que exploro esse diálogo com o seu contexto original como estratégia para a criação de novas histórias.

Ou seja, o projeto acaba por replicar os movimentos presentes num atlas: por vezes privilegia-se o enredo, a estrutura, um regime de tarefas proposto, outras vezes, reivindica-se um pensamento desviante, retirando imagens do contexto para o qual primeiramente foram encontradas, alimentando uma dimensão líquida, expansiva e ensaística.

JOANA PATRÃO - O fascínio pelo absurdo, pela queda, pela ideia de falhanço e de erro parece ser transversal ao teu trabalho. Contudo, o modo como o desenvolves é bastante meticuloso e controlado. Interessa-te esta tensão entre o assunto e o método? Pensas que, de algum modo, o estudo destes temas, a fuga à ordem e à perfeição, contém uma atitude subversiva?

TIAGO MADALENO – Quando comecei este projeto encontrava-me obcecado com o evitar que as imagens remetessem a um universo contemplativo. Intrigava-me pensar como contornar uma ideia de imagem final, irrepetível, mas também como projetar o meu corpo nas imagens, como torná-lo parte constituinte do seu processo de construção, como tornar os verbos visíveis. Esta obsessão com as relações que os processos de construção de uma imagem estabelecem com o seu resultado final conduziu-me a pensar sobre a possibilidade do paradoxo entre o assunto abordado e o método utilizado, considerando também esse diálogo como ferramenta narrativa. Por exemplo, poder apropriar-me do universo da fotografia, que lida com a fixação de imagens no tempo, para fazer um desenho efémero com luz, praticamente impossível de ser visto, ou realizar uma pintura que comprometa as suas próprias condições de visibilidade através de um sistema que permita que ela literalmente respire, condense na sua superfície. Estas ideias surgem-me como propostas que reequacionam a importância do meio e dos processos utilizados enquanto ferramentas mnemónicas. Estes tornam-se peças interpretativas relevantes no processo de revisitação de um evento através da documentação. Invocar a linguagem da pintura ao invés da fotografia, por exemplo, para documentar uma performance obriga a considerar aquela linguagem enquanto dispositivo de memória, mas também enquanto dispositivo ficcional.

A queda, a ideia de falhanço e de erro surgem, antes de mais, como ferramenta narrativa. No Canto I e II (os dois mais desenvolvidos até ao momento) conta-se a forma como a Imagem se liberta de um sistema anterior que a delimitava a uma função específica para poder tornar-se disponível a um novo interesse. Nesse sentido, o projeto apropria-se de um tom de tragédia como resposta a essa situação de perda – os personagens são ridicularizados nas suas tentativas de alterar um destino que já está definido e que os ultrapassa. Ao mesmo tempo, estes falhanços e quedas que reforçam a não concretização do desígnio do herói aproximam os intervenientes da ação (personagens e espaço) das condições de instabilidade em que a Imagem já entrou através da sua desaparição. Ou seja, a possibilidade de expansão, de metamorfose, a entrada num território horizontal, de potência. Por outro lado, o absurdo enquanto ferramenta narrativa permite a inclusão de tudo sem qualquer tipo de constrangimentos – todas as histórias ou personagens se justificam a si mesmas e aos seus gestos, pois pertencem a um universo que organiza as suas obsessões. O absurdo surge como uma estratégia de liberdade.

Não sei se subversivo será a palavra certa. Quero acreditar que a maior ambição do projeto tem que ver com a criação de liberdades. E quando digo isto não penso somente no absurdo enquanto estratégia para interligar elementos dos contextos mais díspares e tentar fazer com que eles façam sentido. Mesmo quando crio estruturas que condicionam ou limitam o jogo da produção das imagens, o que está em causa é sempre a tentativa de descobrir um outro percurso que me obrigue a reformular tudo novamente, a expandir o meu sistema de possibilidades. Um pouco como o grupo de literatura “OuLiPo”, que encontravam na estruturação de limites para a sua escrita, uma estratégia para a ampliação de vocabulário, para o encontro de novos jogos gramaticais, de novas possibilidades combinatórias. Fuga e ordem podem ser sinónimos de liberdades.

JOANA PATRÃO - Uma das partes do teu projeto “Clepsidra” desenvolve-se ao longo de uma caminhada pelo Porto. O que te leva a concretizar algumas das performances que projetas? Neste caso em específico, como pensas esta inserção na cidade? O envolvimento com espaços públicos ou a participação do espectador são questões que consideras desenvolver?

TIAGO MADALENO – O projeto “Clepsidra” – que corresponde ao Canto II – desenvolve-se em torno de um personagem que, na tentativa de recuperar a Imagem que fora lançada anteriormente, decide empreender uma viagem noturna pelo Porto munido de um dispositivo mecânico que faz com que os seus passos produzam energia elétrica. À medida que o personagem se desloca no espaço vai produzindo um rasto luminoso com que tenta desenhar novamente a Imagem, na ânsia de a recuperar.

Após um primeiro Canto que gira em torno do relato, da enunciação, de uma vontade especulativa que, de alguma forma, limitava o narrado à condição de espectro, do imaginado, delineei que o projeto deveria ir ganhando capacidade de inscrição no real.

Ou seja, à medida que este fosse avançando as narrativas deveriam ambicionar ser partilhadas, deveriam invadir o quotidiano e convidar o espectador ao compromisso da especulação, ao testemunho. As histórias deveriam crescer para além de si mesmas, transformando-se numa espécie de fábula, de narrativa oral, de rumor. Esta expectativa de expansão é sem dúvida um dos critérios para a concretização de algumas das performances projetadas.

Neste Canto II em específico, a realização do percurso tornou-se necessário como forma de explorar o confronto entre o corpo do personagem e a estrutura da cidade. Como já disse anteriormente, na tentativa de recuperar a Imagem lançada no Canto anterior o personagem vai desenhando com o rasto luminoso produzido pelos seus passos a forma que perdeu. No entanto, o que acontece é que a estrutura da cidade o impede de realizar o percurso que pretende, obrigando-o a tomar outras direções. Estas constantes alterações de percurso vão “dissolvendo” a Imagem, alterando-lhe o seu contorno, confirmando novamente a sua desaparição.

Esta ideia surge de uma investigação sobre o gesto de caminhar enquanto gesto imbuído de um potencial criativo, capaz de intervir no real quotidiano. Se numa abordagem situacionista o caminhar surge como um gesto libertino, transformista, que ao contornar os percursos utilitários e rotineiros, convidava à criação de uma cidade lúdica, variável consoante o caminhante, neste projeto optei por dotar a cidade de capacidade de resposta a qualquer desejo individual, convidando-a a interagir com o personagem, a infligir na narrativa. O gesto de caminhar produz na mesma uma imagem, e que, dada a sua aparência informe parece remeter ironicamente a um qualquer desejo surrealista, no entanto ela advêm do constrangimento, da dificuldade de movimento e não de uma expressão individual.

O envolvimento com os espaços públicos e a participação do espectador surgem como elementos cada vez mais essenciais para o meu trabalho. Não só como forma de continuar a pensar sobre a produção de um discurso mitológico, associado à fluidez das narrativas orais, ou no que implica a exposição de um trabalho num espaço público – como associá-lo a práticas rituais tantas vezes presentes no quotidiano –, mas também como estratégia para encontrar outros narradores, novos testemunhos. Para além disso, tenho desenvolvido um interesse cada vez maior em torno do conceito do monumento e de como este, enquanto instrumento mnemónico, é integrado em práticas coletivas.

JOANA PATRÃO - Com o projeto “Clepsidra” obtiveste a distinção do Prémio Novo Banco Revelação 2017, que te deu a oportunidade de expor no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Tendo em conta este contexto, que correspondências encontras entre o teu trabalho e o panorama artístico contemporâneo português (e internacional, se quiseres)? E que características consideras distintivas?

TIAGO MADALENO – O meu trabalho desenvolve-se sempre em diálogo com o trabalho de outros autores, tanto artistas como teóricos ou académicos, que vão sendo “chamados” consoante os projetos em questão. Alexandre Estrela foi uma referência importante para mim durante a elaboração de “Clepsidra” no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, principalmente para pensar a construção de dispositivos de visualização/projeção que refletissem sobre uma dimensão mais física, mais corpórea, da imagem fotográfica ou cinematográfica. Francisco Tropa é também uma referência importante no que toca ao diálogo entre narrativa e materialidade, para quando penso na articulação que os meios e os processos em que se manifesta a imagem estabelecem com o contar de um movimento. O trabalho da dupla Pedro Paiva e João Maria Gusmão também constitui uma referência importante para mim, particularmente pelo diálogo estabelecido entre o universo da ciência e o do misticismo, pelo papel efabulatório que os dispositivos analógicos possuem na construção das suas imagens.

A nível internacional, Francis Alÿs é uma referência sempre muito presente, que me ajuda a pensar numa relação entre imagem e mito a partir do conceito de ‘rehearsal’, de ensaio e repetição. Tenho-me interessado cada vez mais pelo trabalho do Martin Boyce, em especial pela ideia de construir um vocabulário a partir da identificação e sistematização de padrões encontrados num outro objeto de representação. Simon Starling é também outra referência importante para mim, para refletir sobre o jogo de relação entre imagem e processo de produção, assim como no diálogo entre meios como ferramenta para potenciar a metamorfose.

Não me parece que tenha um corpo de trabalho assim tão vasto para poder identificar características verdadeiramente distintivas. Creio que numa perspetiva imediata, talvez a construção de uma narrativa estrutural seja o aspeto de maior singularidade – o facto de todo o projeto se ir alicerçando numa estrutura maior, que alberga todas as coisas, situações e eventos que vou produzindo.

JOANA PATRÃO - Enquanto artista emergente quais pensas serem as possibilidades de desenvolvimento e de inserção no mundo da arte?

TIAGO MADALENO – Esta pergunta não é muito fácil de responder… Não existem muitas certezas em relação ao futuro, pelo menos no que toca à possibilidade de ter trabalho garantido no dito mundo da arte. Para ser sincero, sinto que não quero perder muito tempo a pensar sobre esse assunto e que me devo cingir às minhas responsabilidades, que passam por continuar a produzir trabalho, tentar encontrar condições para concretizar ideias, tentar encontrar tempo e espaço para conseguir contar toda a narrativa, tentar fazer com que ela seja mais do que aquilo que eu sou. Esses são os meus objetivos a médio prazo.

Espero não estar a ceder a uma voz romantizada, mas quero acreditar que da mesma forma que a existência das histórias que procuro criar está dependente da sua repetição, a existência do meu trabalho está também dependente da sua repetição. Enquanto eu continuar a trabalhar e a fazer disto a minha vida, o trabalho continuará a existir, porque, na verdade, não me dedico a mais nada. Esse é o meu objetivo, o resto será colheita.

JOANA PATRÃO - Podes partilhar algum projeto que tenhas em curso? Planos futuros de desenvolvimento do teu trabalho?

TIAGO MADALENO – Ultimamente tenho estado focado em trabalhar o Canto III: a Imagem já fora lançada, o personagem após iniciar-se em queda está a perder a sua identidade, e o Espaço principia também um processo de rutura. Trata-se de problematizar um estado de potência, onde de repente a Imagem pode adquirir qualquer função, sem se comprometer com algo definitivo.

Neste sentido, tenho estado a trabalhar em várias histórias em simultâneo, que possuem um elo comum que é distintivo do que fiz até então – os personagens e as histórias que desencadeiam os projetos já existem, já possuem um contexto, documentação, representações… Interessa-me a possibilidade de criar um evento a partir desses registos, de contribuir para aquele universo que não me pertence ao mesmo tempo que procuro encontrar nele um vocabulário. Trata-se de tentar pensar na Performance como arquivo e na ideia de Documentação como gesto.

Joana Patrão e Tiago Madaleno
(Fevereiro 2018) 


Bibliografia:

Patim, I. (2017b). “LETHES ART 2017 – Arquivo Municipal: Narrativas de Identidades & Discursos de Memória", Lethes Art Ponte de Lima. [Em linha]. Disponível em: http://www.lethesartpontedelima.com/leitura_detalhe?id=4.  [Consultado em 5 Mar. 2018].

Patim, I. (2017a). “Conceito Lethes Art 2017: Memória(s) & Identidade(s)”, Lethes Art Ponte de Lima. [Em linha]. Disponível em: http://www.lethesartpontedelima.com/. [Consultado em 5 Mar. 2018].

Como referir este artigo:

Madaleno, T. , Patrão, J., Patim, I. (2018). “Leituras & Escrita – de Artista para Artista: Joana Patrão entrevista Tiago Madaleno. Introdução de Isabel Patim.”, Lethes Art Ponte de Lima. [Em linha]. Disponível em: http://www.lethesartpontedelima.com/leituras-e-escrita. [Consultado em xx-xxx-xxxx].









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