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Arquivo Municipal – Narrativas de identidades & Discursos da memória

Arquivo Municipal – Narrativas de identidades & Discursos da memória

Recriar uma narrativa de memória e identidade, de natureza desconstrutiva-reconstrutiva, para cada um dos espaços de exposição, é a audaciosa proposta de curadoria – com as obras de arte selecionadas, outras textualidades emergem em cada edifício ou local, em múltiplos registos textuais, visuais e sonoros, de memórias e de identidades plurais.

Com as narrativas exibidas no Arquivo Municipal, abordam-se questões de memória e de identidade, que queremos preservar. No local que alberga os arquivos históricos emblemáticos do país, podem ser os títulos das obras de arte expostas a guiar-nos neste local de exposição da mostra de arte contemporânea: com o desenho ‘Lusitânia’, de Joana David, os objetos remetem à memória e identidade de um país com História; na memória e identidade de um povo de navegadores, o ‘Polypus’, figura lendária e temor dos navegantes de outrora, molda o Mar da Imaginação da artista; também se inserem nesta narrativa as memórias reconstruidas, com as ‘Memórias de Família’, de Soledad Reis, numa reconstrução das memórias esquecidas da primeira infância, ou as memórias imaginadas, com ‘eu estava lá’, de Sara da Mata, registo em tela da família da artista, de um momento outrora captado pela objetiva da câmara, mas onde a artista se coloca e, ao inserir a sua figura na composição do quadro, “invoca o seu desejo de presença e estabelece um confronto entre o passado e o presente, entre a morte e a vida”.

 A instalação de Tiago Madaleno, ‘Do Sopro para o Caule’, cuja técnica conjuga a fotografia, o desenho e a pintura, surge, nas palavras do artista, como uma especulação narrativa em torno da tentativa de construir um dispositivo que permita coincidir o gesto de soprar com o crescimento de um caule de girassol: “Ao invés de reproduzir o evento, opta-se por reconstrui-lo através dos diversos momentos que o compõem – a antevisão do gesto através da simulação na instrução; a sua presença enquanto objecto/instrumento que permite o gesto, e o momento posterior ao gesto, através das imagens resultantes da acção”, problematizando-se desta forma a percepção e a memória de uma ação, os diferentes tempos que possui, e as possibilidades de expansão enquanto imagem. Com a obra ‘Canto I – Lançamento’, através de uma fotografia analógica e uma notícia de jornal, o artista reflete sobre a pósmemória (aftermath) de um evento, sobre o potencial interventivo dos documentos na construção da sua identidade, onde “a fotografia surge já como uma memória em terceiro grau (pós- evento e pós reencenação do evento)”.

O tema das memórias e identidades convoca naturalmente a geografia, os discursos do local e do global que, na era do digital, se ilustram neste edifício em Computer Art, por exemplo, com uma obra que tem como base um trapiche e uma embarcação em adiantado estado de degradação, nas margens do rio Lima, intitulada ‘À espera de Caronte’, de Fernando Bandeira. O desenho de Joana David, ‘Musicorum’, convoca a música que, para a artista, acompanha a memória e a identidade, em toda a sua extensão espacial e temporal, sem limites de cultura ou religião. Em plena narrativa musical, o fado e a fadista ‘Amália Rodrigues’, de César Azevedo, confirmam e rejeitam, ao mesmo tempo, a espacialidade e temporalidade da música, linguagem privilegiada do diálogo de culturas.

Outras representações e discursos emergem neste diálogo de culturas. Os Livros de Artista de M.ª X. Fernandez aludem à tradição catalã no dia de ‘San Jordi’, de os casais oferecerem prendas um ao outro – ao homem, um livro, à mulher, uma rosa. A fusão do livro e da rosa proposta pela artista nestes Livros de Artista propõe a união entre géneros. Na mesma linha, os desenhos ‘Angel-I’, ‘Angel-II’, e ‘Followup’, de Melihat Tüzün, abordam as questões de género, com uma proposta que enfatiza que o papel da identidade social dos homens e das mulheres conduziu, ao longo dos tempos, à quebra de relações entre eles.

O tema das viagens e do conhecimento de culturas diferentes é apelativo à memória e à des/construção de identidades. A composição fotográfica de Inês Marinho, ‘196 days in the east’, exibe-se como uma abordagem pessoal sobre a experiência de viver num país da Europa de leste, com registos fotográficos de várias cidades da Bulgária, entre Fevereiro e Setembro de 2015.

Para além das representações sociais e das vivências pessoais emergem, nesta sala, os discursos do imaginário, das emoções, e da espiritualidade. ‘Stining Nettle Woman’, Whistle of Mind’, e ‘Lady Moon’, de Ariane Koch, ilustram a memória do imaginário e do maravilhoso da artista, desenvolvida na série ‘Cloud-Cuckooland’. A obra ‘Alone’, de Piotr Pandyra, bordada à mão e à máquina, aborda as emoções, a solidão “que não foi pedida, mas sim aceite”. Henrique Monteiro de Menezes convoca a espiritualidade: com o desenho ‘Meus Deuses’, um auto-retrato do artista, fala-nos da intimidade e do sincretismo do povo brasileiro com os seus santos; ‘Cortejo’, representação de um cortejo rural, retrata a expressão da fé no poder divino, enquanto que o desenho ‘Transe’, foi criado “pensando nos primitivos povos do Brasil e suas relações com o espiritual”.

A escultura ‘Movimento: da função à forma’, de Luís Filipe Rodrigues, agrega um utensílio, a calçadeira, e a forma em caracol usada em diversas soluções arquitetónicas, como as escadas. Nesta perspetiva, e de acordo com o artista, “evocou-se uma funcionalidade associada a um objeto do sapateiro e de uso doméstico, criando uma transgressão desse utilitarismo através da composição de uma forma abstrata que, contudo, nos remete para uma construção utilitária, como o é uma escada.”

Numa colagem à conceptualização desta obra de arte, alinhada na transgressão do utilitarismo, exibimos a narrativa Lethes proposta para o Arquivo Municipal, como espaço de exibição que transcende a sua funcionalidade, onde coexistem arquivos históricos emblemáticos e obras de arte contemporânea.

Isabel Patim
Julho 2017 

Mais informação disponível em:
< http://www.lethesartpontedelima.com/locais-exposicao/arquivo-municipal >
< http://www.lethesartpontedelima.com/horarios >

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